2008/08/01

Notícias da Colômbia

Hoje, como noutras ocasiões, inadvertidamente, liguei o piloto automático enquanto calcava, rua abaixo, em direcção ao autocarro. Deu-me para pensar na consciência. Não na dimensão filosófica (o que teria sido mais próprio), mas na dimensão moral da consciência. Lembrei-me - seremos nós indissociáveis da nossa consciência? E teci a seguinte tese:
Talvez a nossa consciência individual seja, ela própria, complexa. Feita de convicções "intrínsecas" - e estas são mais nossas que as outras; e "extrínsecas" - aquelas que não são manifestações orgânicas da nossa individualidade, mas reflexos a estímulos externos. Como se, sob as vestes de uma consciência una, o nossa identidade se desfizesse numa consciência singular e numa consciência colectiva. Alí, não mato porque a própria ideia de matar alguém me é abjecta; aqui, não mato porque realizo o advento de implicações sociais nefastas.
A ser assim, só a parte da nossa consciência que se faz de convicções inalienáveis, é indissociável de nós próprios. A outra, é uma manifestação de inteligência ou adequação social. Pessoas há, cuja consciência "identitária" assume dimensões tão desmesuradas que sobra muito pouco para a convenção social; outras, pelo contrário, partem do princípio que muito poucas coisas não serão regateáveis, sempre, obviamente (não vamos nós perder o norte), nos limites da aprovação.
Se pelo menos uma parte da nossa consciência nos define e diferencia, então, a nossa obsessão moral faz-nos, nessa medida, ... isso mesmo... egocêntricos. (É certo que este egocentrismo não tem nada que ver com o outro, que também trata da personalidade, mas pouco ou nada da moral. É, antes, uma contingência).
- "Era inexorável. Inabalável. Absolutamente auto-absorvido!", poder-se-ia dizer.
O que só prova que alguém pode ser um egocêntrico ortodoxo e, simultaneamente, manter na relação com o outro uma rectidão intocável.
Não me lembro, exactamente, porque é que me lembrei de tudo isto. Por aproximação, arriscaria a hipótese de um recente confronto com a puta da realidade - aquela que a demasiados desvitua (opto por um rousseau adaptado, para não parecer demasiado cáustica) - me ter projectado para o domínio do "falador/pagador". Quando falamos, não só em nosso nome, mas no de outros que não podem ou optam por não querer defender-se, o nosso comportamento só não será colado a um rasco de estupidez, puro e duro, defendendo, rua abaixo, que sofremos que uma forma, aparentemente mais benévola, mas profundamente autodestrutiva, de egocentrismo. Isso, eu sou uma egocêntrica.
Ou, como alguém me dizia, comporto-me como se estivesse num Estado de Direito, esquecendo-me que isto é a Colômbia.