2008/10/14

Legado platónico

«A nenhum outro se julgava meu pai mais devedor que a Platão; nenhum ele recomendava com mais insistência aos jovens estudiosos. Devo aqui formular o mesmo juízo. O método socrático, de que os diálogos de Platão são os documentos mais seguros, é ainda hoje a melhor disciplina de espírito para corrigir os erros e esclarecer as confusões inerentes ao intellectus sibi permissus, isto é, à inteligência que deve à linguagem vulgar os seus grupos de associações de idéias. Todas as operações que constituem este método, a saber: a interrogação (elenchus) rigorosa e apertada que constrange um homem cujas idéias são apenas vagas generalidades, a exprimi-las em termos precisos ou a confessar que não sabe o que diz; a verificação constante de toda a proposição geral pelos casos particulares; o domínio do sentido dos termos abstractos e gerais, por operações que consistem em determinar algum termo genérico ainda mais extenso que o compreenda a ele e a outros e em descer, servindo-se da mesma operação, até àquele que se procura, em descobrir os seus limites e em defini-lo por uma série de distinções entre eles e os que se lhe assemelham, para finalmente os separar; todas estas operações são de um inestimável valor para coagir o homem a pensar com rigor. Mesmo com a minha pouca idade, exerceram sobre mim tal influência que se tornaram, por assim dizer, os elementos do meu próprio espírito.
Nunca mais deixei de pensar que o título de discípulo de Platão pertence mais àqueles que adoptaram o seu processo de investigação e que se esforçaram por manejá-lo com perícia, que aos que se distinguem somente pela adopção de certas conclusões dogmáticas, extraídas, as mais das vezes, da parte menos inteligível da sua obra; o próprio Platão e o conjunto da sua obra, deixam-nos sem saber se ele as considerava como conjecturas filosóficas ou como simples fantasias poéticas.»


John Stuart Mill - in Memórias