2008/11/28

Bengalas

«Roebuck, sob muitos pontos de vista, não diferia muito da ideia que fazia vulgarmente do benthamista ou do utilitário. Amava a poesia e as belas artes; gostava da música, do drama e, sobretudo, da pintura; desenhava paisagens com muita facilidade e elegância. Mas ninguém conseguiu que ele reconhecesse o valor das artes na formação do carácter. Ao contrário da ideia vulgar que se fazia dum benthamista, que toda a gente julgava desprovido de sentimento, ele vibrava com facilidade e profundidade. Mas, como a maior parte dos ingleses dotados de sensibilidade, esta parecia-lhe um embaraço. (...)
Em vão lhe mostrava que a comoção imaginativa, procurada por uma ideia vivamente concebida, não é, de maneira nenhuma, um embaraço nem uma ilusão, mas um facto tão real como qualquer qualidade dos objectos (...) O agradável de uma sensação povocada pela beleza duma nuvem iluminada pelo sol poente não impede o reconhecimento de que a nuvem é vapor de água submetido a todas as leis do vapor em suspensão. É-me igualmente possível compreender as leis da física e servir-me delas sempre que seja necessário, tal como se fosse incapaz de perceber a distinção entre o belo e o não belo.
(...) Nunca consegui explicar esta maneira de ser, senão por uma timidez e uma excessiva e inata sensibilidade, que muitas vezes tem arrastado para o seio da Igreja pessoas dotadas duma bela inteligência, na esperança de encontrarem um ponto de apoio mais firme que aquele em que seriam capazes de assentar, se as suas conclusões fossem pessoais.»


John Stuart Mill - in Memórias